A onda sempre me empurra, ando à deriva
Saio do penedo, calco argaço venho beijar a praia
No mar não me posso esconder
Nem posso dizer que ando perdida
Moça, tu escondes vida debaixo da saia
Sou concha, ando no mar de vaga em vaga
Me deito cansada na areia
Espero que a água do mar me traga
Fugindo dos encantos da sereia
Venho talvez ouvir o som da guitarra
Empurrada, eu não tenho lugar certo
Nem a água do mar me amarra
Corro as praias, vento me leva para o deserto
Por vezes venho parar ao pé duma palmeira
Corri as profundezas da água azulada
Tive pérola, e fui concha verdadeira
Vi o sol nascer e se deitar
Antes do amanhecer tantas vezes vi o luar
Vi egoísmo de mim à procura
Ouvi vozes por mim a chamar
Queriam de mim uma perla escura
Era feliz nas profundezas azuladas do mar
Tinha outro peito que me cobria
Era igualzinho, mesmo irmão
Entre os dois a tal pérola e meu coração batia
Da praia onde estavas tenho paixão
Hoje por ti bate meus dedos e minha poesia.


Por: Armando C. Sousa