Os teus passos


Amor, mesmo o som de teus passos me são familiares; quando chega à hora de me acordares meu coração te espera para me beijares; o sono termina assim que recebo o beijo, e sinto nossos lábios a cruzar ao acordar.

Olho para ti flor; já vai a tantos anos que não para de florir o nosso amor.

Sim, eu nunca parei de cuidar de ti flor; reguei-te, mudei-te de terra, e tu gostaste da muda, tornaste-te mais bela.

França foi nosso segundo jardim, tu te lembras; que bela rosa me deste, era tão pequenina quando a arrancamos do torrão onde essa flor nasceu, mas nós procurávamos para todos viver num céu.

Viemos ter a este País das neves eternas, mas de Cidades modernas.

Fui trabalhar para o fundo muito fundo de uma mina, tenha medo de encontrar lá o inferno, o mafarrico, mas afinal era tudo mentira, era a religião, e qual religião, apenas o grande defensor do homem rico, professor da ignorância, e defensor da cegueira.

Foi ao compreender tudo isso que agarrei nos deuses e diabos dessa religião, os amarrei juntos, e os atirei bem fundo mo mais negro porão.

Ali permanecem, fora da minha mente, o que me tornou forte amoroso e poeta contente.

Depois que escorracei o medo, meus olhos abriram-se, e vi bem claro, quais as intenções disformes, e sem explicação lógica alguma, a não ser controlar o ser humano pelo medo.

Flor, neste meio, com língua diferente ninguém tinha a ousadia de te meter medo, uma porque não compreendias, outra, porque o medo não existia.

Não havia charnecas com bruxas, não te esbarravas com defumadoiros a arder, não ouvias excomunhões; isto porque palavras não matam, tem menos força que safanões.

Deixamos singrar a ignorância no seu habitado, porque era, é e será impossível destroçar essa verdade, formada duma grande mentira, mas só verá a realidade quem realmente amar, por amar, sem medo.

Bom amor, ao retirar-te daquele mundo de mentira, coloquei-te entre a lua e as estrelas, mas sempre te diferenciei no meio delas.

Olha amor; há quem conte tostões; nós à noite contamos estrelas a piscar; se é noite luarenta e morna ali ficamos as flores a orvalhar, e a beijar.

Entre as flores do jardim o teu cheiro é inebriante e quente, na minha mente.

O meu pensar o conhece e o cativa, porque é esse cheiro, esse amor que faz viver a vida.

Olha; quando viemos para o patamar, sentimo-nos voar e flutuar bem alto, quantas vezes na cadeira comprida se calhar fazemos amor, já não damos vida à outra vida; mas sentimos de nosso corpo o calor; quantas vezes me dizes a mim; tu és único que tocas na flor deste jardim, onde só tu conheces a cor.

E assim saciados de nos abraçar e beijar, vamos ao chuveiro antes de nos deitar.

De manhã abres a cortina da porta do patamar para veres a clareza do dia, e os teus olhos brilham de alegria.

Mais uma vez a um deus imaginário a agradecer, por acordar e continuar a viver.

Ao vires para traz eu reconheço teus passos, e vens tu amor cobrir-me de abraços
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Por: Armando C. Sousa

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