Meu pensar a
debulhar a vida desde criança
Fraldas a secar á lareira, ou dormir molhado
Nasci no ano que nasceu ditadura, a herança
Fome, neve fria, meus pés nus, sem calçado
Debulhando a
vida...
Seis anos, amor
de pai, roubado por um antraz
A cara, lavada com lágrimas de amor de mãe
Brincadeiras, bugalhinha, pião, mais, era rapaz
Jogava a casinha e pedrinha, raparigas também.
Debulhando a
vida...
Igreja não
podia lá entrar, era menino descalço
O padre dizia, olha, Deus, descalço não te aceita
Chorava, não pertencia à cruzada, e tinha paixão
Venho a compreender, governo, padres, uma seita.
Debulhando a
vida...
Casei-me, fui
ao altar, não desmanchei prazeres
Na minha mente só meu amor, e a palavra valia
O que prometia fazia parte dos sagrados deveres
Balouçava, beijos e Abraços, eram minha alegria
Debulhando a
vida...
Tristeza bateu,
esposa, filhos choravam sem pão
Filhas a cada dia corriam abraçar tias e vozinha
Estas sabiam porque, lhes fazia dor seu coração
Aqui amor de sangue que a humanidade acarinha.
Debulhando a
vida...
Ditadura, Pátria
madrasta, amor, tinha que partir
Enfrentar outra gente outra língua, mas mais pão
Franca bendita, as mãos sangrando, grande sorrir
Nada faltava, agradecia, de amor abria o coração.
Debulhando a
vida...
Ter pão,
ver mundo, Canada foi meu doce destino
Depois de quatro filhas, aqui nasceriam dois varões
Principiei a viver o que não tinha vivido em menino
Esposa e filhos sentia-mos felizes nossos corações.
Debulhando a
vida...
50 anos passaram
depois de nos ajoelhar no altar
Ali prometer para as vidas, pão, cuidados e amor
Dois em Cuba, vamos nossas promessas renovar
Honestidade, pão e alegria, mesmo custa de dor.