Grandes barbas; cabelo grisalho despenteado
Em rodilhas embrulhado casacos rasgados
Estendia a mão, moncos caindo, sentado
Por vezes murmurava, dizia talvez, meu fado

Já foi menino; homem não o quis talvez ser
Ali sentado ao frio, sem teto, sua mão a estender
Por vezes pegava num papel para um cigarro rolar
Mas quê; as mãos tremiam, fazendo o papel rasgar.

Teria filhos que o deixariam ficar naquele estado
De vez em quando esfregava o corpo com as mãos
Eu olhava-o de coração a doer, nada podia eu fazer
Perguntava a mim mesmo, se ele não teria irmãos.

Perguntei-lhe se foi pai, e se teve esposa também
Respondeu-me com um rugido, não entendi bem
Parece-me; fiquei perdido desde que morreu a mãe
No carro que eu guiava seguia o meu pai também.

Creio que de minha cabeça; eu fiquei meio tarado
Sem poder ganhar pão, sem pais, fiquei abandonado
Hoje aqui na rua, no frio peço esmola à caridade
Para dormir, tampas de esgotos ou escadas da cidade.

Mais tarde, baixas temperaturas e de neve tempestade
Vi aquele corpo estendido, sem vida, cheio de neve...
Homem tanto apregoas, mas só à riqueza dás liberdade
Gritei, à maldito sistema de governo que nos serve.

Ó sonho de morte, arranca-me para longe para o além
Diz á vida que tanto amor contem, para vir também
Cada um seguira seu norte; eu seguirei o de morte
Voltarei ao seio de terra que me criou: é fado e sorte.



Por: Armando C. Sousa