Ho… quantas vezes chega o luar
e desejo cova escura
Nesta idade só o pensamento e coração sabem
amar
Ferrugem de artrite, peço eternidade a sonhar na sepultura
Pensamento e dor; Ho, as pernas não podem mais andar
Desejo pelo menos ainda teus lábios, com doçura
Já não sinto ardente emoção, do
nosso amoroso cabriolar.
Agora na cama sozinho, e tu no outro
quarto a gemer
Levanto-me para te dar boa noite e um afago de carinho
Amor confidencias outro tanto; venha o eterno adormecer
Lágrimas rebentam outra vez, nos lençóis
de espinho
Manhã ouvindo a rola, alegra-me a primavera se não
chover
Vou as rolinhas a beijar e picar areia no caminho.
Momentos com menos dores sinto muito
mais alegria
Me lembro dos poetas e dos meigos amores
Encho a pena de vontade; volto a escrever poesia
Mais uma pastilha, para matar antes que cheguem, as dores
Me alegro se a esposa diz, a perna de gesso e pesada
Mas farei um esforço para juntar nossos odores.
Então
me imagino nos velhos tempos com minha amada
Depois não sei se de prazer ou dores, a ouço gritar
Esqueço os maus desejos, quero viver, vida tresloucada
A alegria volta, desejo o amor, dormir sonhar e acordar
Esperando a primavera no nosso entardecer e alvorada
São tão amigos os filhos e os netinhos, nos vem
abraçar.