Estava no vale do sul, tinha carinho mas sem pão
Sentia o amor de mãe maciinho
Era maravilhoso o meu vale, Portugal meu torrão
Mesmo com fome ali fiz meu ninho
Migrei do vale para não morrer
Havia cheiros de eucalipto e de mimosas
Meus passarinhos pediam comer
Não podia só chorar, e ver morrer minhas rosas
No Norte o sol era igual, céu azul de noite estrelado
O chão era de neve branquinho quando cheguei
Ali havia cheiro à liberdade e ser honrado
Trabalho duro, mas tanto pão, amei
Seguia meu destino corria meu fado
Era freixo robusto, em frágil mocidade
Hora a hora via cavar-se meu túmulo fora do torrão
Mas amava... mais igualdade e mais liberdade
Tinha lenha para aquecer, filhos e esposa, minha paixão
Aqui talvez dei-a meu corpo, ao destino do infinito
Meus filhos tem carroça carregada com o tesouro do saber
O que. no outro vale vivia sempre aflito
Meus filhos iriam viver na ignorância, sem aprender
Anos passam, sei que um dia não darei mais um grito
Nem voltarei a despertar deste viver
Amaria ser carbonizado, voltar em cinzas à mãe
Voltar ao alivio ficar eternamente sem nada doer
Nem as saudades sem ter do além
Deixar o sol nascer, as aves cantar sem abrir meu sorriso
Mas serei microorganismo também
Nem os ventos fortes poderão soprar minhas cinzas ao paraíso
Porque do Transito para a morte nada existe além
Nos apenas deixamos o verdadeiro
Para entrar no trânsito do nada que a vida tem.



Por: Armando C. Sousa
Canadá - 09/07/06