Chorando
contando há quantos anos que parti
Da minha cozinha de terra; sala que eu dormia
Já lá vão trinta ou quarenta, tantos,
já nem sei
Minha esposa está o passado chorando, contando
Com cantigas desse tempo que se vai lembrando.
Dei uma volta há vida,com ela andei meio mundo
Encontrei desenganos, trabalhei não fui vagabundo
Minha alma ingênua, cansada, ou adormecida
Cantigas desse tempo eu ouvia dela, de voz dorida
Cantava minha esposa, talvez esquecida, entretida.
Desfeito meu coração por um golo de amargura
Mostrando tanta mágoa no olhar que se embacia
Por ter saído do meu ninho sem pão frio e estreito
Deixando minha mãe que me embalou e deu o peito
Minha esposa canta-me cantigas a ver se eu dormia.
Espero que o destino volte minha alma a meu ninho
Entre estrelas luzernas montanhas, sol terra e mar
Procuro tudo que eu deixei, os amigos pelo caminho
Só encontrei amor, e vi de dinheiro sou pobrezinho
Minha esposa canta cantigas, antigas de fazer chorar.
Ponho a minha cabeça no teu regaço de amor amado
Preciso de teus afagos mulher deixa-me te abraçar
Verás que o amor deste teu amado é puro, imaculado
Minha esposa; amiga, vem a mim, meus lábios beijar
Canta-me cantigas de adormecer, de viver, de sonhar.
Com tua vós doce, mansinha muito mansinha, canta
Triste muito triste como a noite ventosa sem luar
Canta-me cantigas que eu contigo na roda dancei
Na roda desta vida num muito longo amoroso abraçar
Que venha a morte quando teus doces lábios beijar.

Por: Armando
C. Sousa