Eu não tenho nenhuma raça
Chamam-me de vira-lata
Eu não sirvo nem pra caça
Durmo na rua ou na praça


Com frio ou chuva perambulo pelas ruas
Sou chutado pelos bêbados e outros cidadãos
Muitas vezes saio correndo com medo da perua
Posso ser sacrificado ou talvez virar sabão

O que muitos não sabem é de onde eu provim
Meus ancestrais originaram do primeiro lobo na terra
Muitos me acham feio e alguns bonitinho
Quando uma casa me adota pode crer que nunca erra

Durante a noite pela cidade contemplo a hipocrisia
Se deitar para dormir me chuta e me xinga
Nas minhas andanças constantes vejo festas de alegria
Lá comendo e bebendo eu aqui morrendo a mingua.

Muitos dizem: coisa triste é vida de cão
Esta é uma verdade que não pode contestar
Só que tem cão que viaja até de avião
Mas com o pobre vira lata a coisa é outra questão

Exceto algum vira lixo
Que por alguém é adotado
São tão respeitados que não tratam como bicho
E até por nome de gente o danado é chamado

O que vocês não sabem é eu posso ser de estimação
Quero estar sempre ao seu lado sua casa vigiar
Não peço muita coisa a não ser arroz e feijão
E uns parcos ossos pra que minha fome venha matar

Se adotares um tomba-lixo como também sou conhecido
Você vai ter muito carinho e também distração
Pois um cão quando é amado fica enlouquecido
Com a presença do cachorro criança teve recuperação

Um vira lata é inteligente amoroso e leal
Nunca deixa de ser amigo mesmo com depressão
Os cães deveriam ser tratados de maneira igual
Seja de raças ou vira-latas o que querem é atenção

Dizem que somos mais agressivos do que os de pura raça
Isto não é verdade o que outros têm é instrução
Uns vão puxar trenó outros destros na caça
Alguns para o pastoreio outros perseguem o ladrão

O homem é culpado das nossas poucas agressões
Que na fase de formação nos negaram pão
No desenvolvimento da personalidade não nos deram atenção
Carregamos em nosso corpo a seqüela da humilhação

Agora parando com este lamento quero fazer uma apelação
Quando vir um vira lata sem lar sem comida e desprezado
Deixem-nos perambular sem nos fazer mal-criação
Mas se tiveres bom coração estamos aqui pra sermos adotados

Ainda em tempo quero te lembrar
Quando quiser nos encontrar
Estaremos em toda parte até no cemitério nos verá
E onde nós estivermos qualquer um te informará.


Autor: Valeriano Luiz da Silva

Anápolis-Go, 12/03/2004