Cresci órfão de mãe. Durante o tempo em que vivi com meu pai foi comum vê-lo trocar de mulher, era um homem atraente, por isso tinha facilidade de adquirir novos amores e paixões nunca consolidadas.

Por isso para mim não foi novidade quando entrei em casa e encontrei uma mulher, engomando roupa, senti-me constrangido; como forasteiro em minha casa.

Perguntei-lhe pelo meu pai ela respondeu que saíra, mas que voltava logo, ela perguntou: Você é o filho dele respondi que sim. Há! Ele disse que você estava para chegar (comentou!)...

Da sala onde eu estava podia ver-se uma jovem na cozinha mal iluminada pelas chamas dançantes, da lamparina, de onde subia uma coluna de fumo.

Não demorou muito, a moça saiu na sala, era simpática e sorridente logo ela disse; essa e Nevinha minha filha.

Ficamos ali conversando, o nome dela Maria das Neves que carinhosamente chamavam-na de Nevinha.

Quando meu pai chegou disse-me; Essa é sua nova madrasta, vai morar aqui conosco eu não disse nada, encarei o fato como um acontecimento normal.

A noite chegou, e com ela as nossas dificuldades, pois a casa só tinha um quarto, sala onde eu dormia, e uma pequena cozinha, onde havia um fogão de lata, e ao lado uma outra com carvão, e sempre havia uma chaleira de ferro sobre as grelhas.

Meu pai pegou minha rede e disse; você dormirá aqui ao lado de Nevinha, que constrangida riu castamente, sua mãe disse brincando cuidado com ele.

Assim os dias passaram tépidos, encarei a situação com naturalidade fui me acostumando com Nevinha, e ela comigo.

Á noite quando estava em casa, na hora dormir ficava conversando até altas horas, coisas fúteis, visto que nossa rede era muito perto.

Com o passar dos dias Nevinha, ficou mais desinibida, às vezes eu a cutucava com o pé e mexia com ela, às vezes ela mexia comigo.

De vez enquanto, acordávamos ouvindo sua mãe com ânsia de vomito parece que tinha problemas estomacais, uma noite disse-lhe: vêm para minha rede ela respondeu ta doido! Mãe esta acordada, eu vou casar.

Eu ainda era muito jovem recém formado grumete, e servindo embarcado em um navio rebocador, passava muito tempo no mar ou viajando, de vez enquanto erramos chamado em emergência para fazer um reboque de algum navio a matroca no mar.

Dessa vez rebocávamos para o porto de natal um navio grâneleiro.

Na praça de maquinas pelo telefone de combate ouvia as mensagens que transitava do passadiço a máquina de reboque “pega dez pés de cabo ou recolhe vinte pés do reboque” de acordo com a necessidade.

Tudo a bordo estava peado por causa da fúria do mar, As ondas lavavam o convés de proa a popa. “O archon Serafim” mergulhava nas vagas para subir na crista das ondas alterosas e depois mergulhar fazendo o cabo de reboque ringir na borda.

A Forte Coimbra, vencia bravamente a ira domar enquanto os relâmpagos cortavam o céu enfarruscado. Assim por três dias fomos castigados, mas em fim chegamos ao estuário do Potengi.

Em águas calmas recolhemos o cabo e navegamos ao porto seguro.

Às dezoito horas tocou licença e fui para casa, ao saltar do ônibus ainda senti os efeitos do balanço mar, caminhei procurando equilíbrio. Começava a descobrir os rigores do mar.

A rua estava deserta e escura, a lua estava encoberta por uma grossa camada de nuvens, em algumas casas tinha sinais de luz que saiam pelas frestas das janelas. Bati na porta e ouvi a voz fina pergunta; quem é?

Sou eu Nevinha respondi!

Ela abriu aporta e eu recebi um sopro cálido de seu corpo, senti seu cheiro e o hálito quente. Demorei um pouco perguntei pelo meu pai tinha ido trabalhar de vigia numa construção sua mãe dormindo.

Armei minha rede e fiquei pensando nos últimos dias nesse interlúdio minha mente começou a viajar. Através de um nevoa, a lua achava-se escondida pelas nuvens baixas, mas vestígios de seu clarão filtravam-se através das sombras.

Através da penumbra eu via Nevinha desnuda ensaboada, e sorrindo me abraçava, as nuvens fecharam-se ficaram mais espessas e o brilho da lua desapareceu. O mar estava calmo e de repente Nevinha tinha o rosto de boneca chinesa pintada de azul, seus olhos eram amarelos, tinha dois chifres que sobressaíam de sua cabeça, dos seus peitos duas enormes serpentes voavam contra min.

O sol era escuro e irreal mais parecia belo, nadamos juntos ficamos nus; senti sua mão me tocando e deslizei minha mão sobre o seu corpo macio. Senti seu corpo cálido e deslizei minha mão sobre o seu peito e senti a rigidez de seus mamilos, estremeci e comecei a despertar.

Nevinha estava na beirada da rede me olhando e sorriu recatadamente, perguntei-lhe o que era ela disse posso me deitar aqui? Respondi e se tua mãe acordar ela disse estamos sós.

Depois daquele dia toda noite eu passava para rede dela, mas ela nunca deixou que eu a possuísse, ficamos assim uns quatro meses enquanto durou o idílio de meu pai com mãe dela ate que se separaram.

Meses depois vi Nevinha, agora senhora Nevinha, havia casado virgem.

Durante muitos anos quando botava meu uniforme branco sempre lembrava dela.

Muitas vezes encontrei Nevinha engomando minha farda no ferro de carvão, sob a luz bruxuleante da lamparina, que formava sombras bizarras nas paredes quando soprava o pesado ferro.

Hoje ainda quando vejo um marinheiro vestido a rigor não posso deixar de lembrar e render as minhas homenagens àquela menina carinhosa e doce, desejoso que ela seja feliz, e agradeço a Deus por não ter permitido, que eu atirasse sua honra na lama.


Autor: Gilson Cassiano de Góes