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Eu
era um menino, quando fui morar com meu irmão mais
velho num povoado chamado Maiero. Era somente meia dúzia
de casinhas de taipa, feitas de vara de marmeleiros, e barro
amassado, onde ficavam os “barbeiros besouros hematófagos”.
No meio passava uma estrada de piçarra um barro vermelho
pedregoso, que quando passava um caminhão a poeira
enchia o ar de vermelho.
Quando
chovia plantávamos milho feijão nos roçados.
Na seca plantávamos na vazante do Açu, quando
o rio não apartava. Às vezes para sobreviver
cortávamos lenha para fazer carvão. Nos dias
quentes íamos pescar nas lagoas, e nas noites de
lua clara íamos, fachear as arribações
entre os pés de Jurema e macambira. Margeando a estrada
para qualquer lado que olhasse ate onde os olhos alcançassem
só via os carnaubais.
A
árvore providencial do Nordeste, a carnaubeira tudo
fornece ao matuto industrioso. Com as palhas, de que tira
a cera, cobre a choupana, tece a esteira fabrica o chapéu,
o abano, o landuá, dezenas de artefatos. O tronco
é cumeeira de casa viga de alpendre, mourão
de porteira e esteio de ponte, caibro, ripa, cano e bica
de água, indestrutível no seco e no molhado.
O
fruto, espécie de tâmara redonda negro e adocicado,
o cacho de que pende serve de vassoura. Os talos são
aproveitados para cavalos de pau da meninada ou guarnição
de gaiolas feitas com palitos da palmeira. As raízes
dão remédio popular. A Carnaúba é
um presente de Deus aos Nordestinos.
Todas as manhãs eu costumava botar milho para as
galinhas naquele dia achei estranho uma galinha preta olhando
melhor descobri era urubu eu sempre o enxotava mais o bicho
estava viciado sempre estava no meio das galinhas. Comuniquei
o fato ao meu irmão que prendeu um galo fogoso rei
do quintal sem da comer de manhãzinha quando botei
milho para as galinhas ele soltou o galo que partiu em fúria
para cima do urubu que abriu as asas tentando reagir, mas
diante da fúria do galo bateu em retirada e nunca
mais voltou.
Foi por volta do meio dia que o carro da feira esbarrou,
levantando muita poeira da estrada de piçarra vermelha.
De minha casa vi descer uma mulher loira da capital. O Antonio
olhou e disse: Quem será a russiana bonita que desceu?
Redargúi pergunta a seu Agenor deve ser gente dele.
Os dias passaram sem novidades, mas a freqüência
da loira na janela atiçou a curiosidade do Antonio.Todos
os dias íamos para o rio levávamos “Paul”
adubo de folhas de carnaúbas seca para adubar as
leiras de batata nas vazantes do Açu, e voltávamos
com as barricas cheias de água, e algumas batatas,
para comer com arribação assada. Naqueles
dias havia muitas fazia sombra quando faziam revoadas.
Na entre vespa do são João meu irmão
levou umas batatas para o compadre Agenor para assar na
fogueira no dia do santo, lá conheceu Joana a loira
bonita da capital. Antonio virou a cabeça disse-me
que só pensava na Russiana.. Sebastiana desconfiou
porque o Antonio não saia mais janela só olhando
para casa da loira que correspondia aos seus olhares. Alem
disse estava saindo muito para colocar “fojos” armadilha
para preá houve muita altercação Antonio
prometeu largar a Sebastiana por causa do ciúme.
Vi então o perverso olhar da concupiscência
estilhaçar uma união como um espelho espatifado
ao chão.
Nos criávamos uma gata pintada uma noite ela tinha
comido umas arribações que ficara para o café
da manhã por isso fora jurada de morte pelo Antonio
que passou a adiar a gata pintada, dizia ele que era ladrona.Vivia
ameaçando a pobre gata de cortar lhes a cabeça
como fez com pato, que só queria cruzar com o galo.
Mas, naquela noite ante, véspera de são João
despertamos com os maiores miados do mundo pensávamos
que era a gata no cio, mas era dentro de casa.
Antonio levantou se levantou com a foice na mão é
hoje que acabo com vida dessa ladrona. Acendeu o lampião
e se espantou quando viu o rolo de cobra debaixo de sua
rede. Á gata pintada segurava no pescoço da
cascavel que havia se enrolada no corpo dela numa luta mortal
meu irmão foi lá e pegou na calda cobra cortando
a pelo meio. Dias depois vi meu irmão com a gata
no colo.
No dia de São João a noite estava linda estrelada.
A Diana vestida de duas cores azul é encarnado era
disputada para mostrar suas qualidades de rainha do pastoril.
Dançando em requebrados febris, feita serpente no
fogo. A madeira ardia levantando novelos de fumaça
tornado o arraial insuportável a fumaça toldava
meus olhos que lacrimejava como os troncos da bananeira,
sangrado pelas jovens namoradeiras em busca de casamento.
A sanfona não parava tome xote e batida mãos.
Um passo lá e outro cá rodopiavam e batias
as mãos. Sebastiana chegou perto de mim disse: “Meu
fio” procure seu irmão, Branquinho vai começar
o sorteio de da lata de doce. Nestes dias juninos sempre
ocorria um bingo. Tínhamos comprado uma cartela.
Os prêmios eram, doces um bode galinhas. Tentando
enxergar no meio da poeira vi meu irmão dançando
com moça loira a russiana como meu irão se
referia a moça loira. Não disse nada a Sebastiana.
Porem logo ela chegou esbaforida entrou no meio do bale
segurado uma vara de marmeleiro e disse: Sua quenga você
anda dando em cima de meu "home"! E agarrou a
loira pelos cabelos e pau cantou. Fez se uma roda todos
ria e as duas rolaram na poeira.
O palanque era montado em cima de quatro barricas de água
num descuido a briga rolou por cima do palanque, a vara
escapuliu e furou o fole de Zé Tributino que ameaçou
vão pagar. Mas, o pessoal do deixa disso logo separou
as duas, depois que colaram o fole do Zé e o baile
rolou a noite toda.
Dias depois a moça voltou para capital e nem assim
as animosidades daquela noite não terminaram meu
irmão resolveu que iria embora para Natal vendeu
o carvão acabou a lavoura e começo a se preparar
para ir embora mas isso sempre em constantes altercações
com a mulher não é muito difícil terminar
um relacionamento quando não tem nada para dividir.
Vi o entrelaçado de meu irmão com a mulher
ir se esvaindo como fumaça das fogueiras juninas.
Era época poda “desfolhavam-se as carnaúbas
para retirada da cera da palha”.O dia a ainda não
tinha nascido. No nascente a estrela matutina ainda brilhava
com todo fulgor, e o sol relutava em apagar a escuridão
da noite fria, eu me preparava para ir colher palha de carnaúba
quando vi um caminhão parar de frente a casa ainda
colocando as alpercatas vi por debaixo do caminhão
os pés de uma pessoa calçada com coturnos
de soldado fiquei olhando meio desconfiado quem seria àquela
hora.
Após uma conversa com chofer o caminhão deu
partida deixando a poeira para traz o homem encaminhou-se
para o portão só então o reconheci
era meu pai que sem rodeios disse: Vim lhe buscar. Naquele
mesmo dia vim para natal morar com meu pai na lagoa seca.
Não demorou muito meu irmão veio morar em
Natal na casa de meu pai finalmente tinha largado tudo para
traz não conseguira ficar longe da russiana “a loira”
Em quanto juntava recursos para montar casa nos trabalhávamos
juntos nas instalações de água para
residências o que para mim era doloroso eu tinha somente
quatorze anos e as mãos calejadas pelo uso da e pá
e da picareta.
Era um daqueles dias quente que você não ver
uma nuvem no céu vínhamos caminhando por muitas
horas cada um carregando suas ferramentas eu pá e
picareta, ele com a mala de peças. O sol queimava
meu rosto ainda juvenil deixando marcas que somente no futuro
as veria, e o suor escorria nas minhas faces jovem e cansada.
Havia uma camioneta atolada na estrada naqueles dias não
havia asfalto, ou era piçarra ou areia, diante do
pedido de ajuda fui e disse vamos quem sabe ele nos leve
ate onde puder. O Antonio sempre foi meio desconfiado respondeu:
Vou não! Depois ele vai embora e ainda leva as ferramentas.
Coloquei as ferramentas dentro carroceria e empurrei o carro
fiz força a adoidado.
Ate que o carro foi saindo do atoleiro e arrancou a toda
velocidade levando meus a petrechos Meu irmão com
ar superior disse com menoscabo não te falei, quando
disse lhe que o carro o levara minha ferramenta. Riu muito
ainda mais com meus impropérios que causado pela
irritação de suas risadas.
Antonio voltou a se encontrar com Joana, logo foram morar
juntos, um dia ouvido eles conversar, Joana perguntou se
ele teve coragem de largar tudo por ela ele respondeu “Querida
vim porque não poderia viver longe de você,
meus pensamentos correm para te como os rios correm para
o mar, ainda hoje lembro o dia que a vi pela primeira vez
na ”Jinela“.
Por essa época havia uma corrida para se desbravar
a Amazônia. Diante da pouca perspectiva e vida melhor,
O meu irmão partiu com a benção de
nosso pai, para Altamira. Depois de uns meses recebemos
umas duas cartas da qual ele falava das dificuldades, e
o sofrimento com as doenças ali existentes. O tempo
passou e não receemos mais notícias perdemos
o contato.
Logo depois da de sua partida entrei para Marinha, fiz muitas
viagem para Belém muito embora soubesse que ele morasse
em Altamira era impossível encontrar alguém
sem endereço numa cidade com centenas de habitantes,
alem da distancia que era muito grande.
Passara-se vinte cinco anos. Um dia em uma conversa com
um colega, na coberta de alojamento. Quando viajávamos
para Belém, contei-lhe das tantas vezes que fui a
Belém da saudade do meu irmão que não
tinha noticias e nem sabia do seu paradeiro a vinte anos.
Ele perguntou-me onde ele morava disse lhe em Altamira este
colega disse-me: Rapaz o Adamor vai viajar para lá
a família dele mora lá quem sabe ele conhece
vamos falar com ele.
Na conversa descobri que sua mãe era dona do cartório
finquei amais animado com a possibilidade dele ter registrado
alguém naquela cidade pelo sobre nome era possível
encontrar o endereço. Em Belém combinamos
que se ele encontrasse me telefonaria para um contato. Depois
da chuva, ás cinco horas meu colega baixou terra,
viajaria durante a noite. Durante aqueles dias não
baixei terra aguardando a resposta com ansiedade somente
no segundo dia recebi o telefonema, ele me disse: existe
um registro de Uzilene Cassaino de Góes, é
seu parente?
Respondi que não sabia já fazia muito tempo
que não sabia noticias de meu irmão. Procuramos
os pais e pela descrição podem ser seus parentes,
mas mudaram de endereço, mas tenha paciência
nos acharemos. Naquela tarde o ultimo dia naquele porto
no apagar do dia o telefone tocou ele disse; Góes,
marquei um encontro no telefone às 18 horas, me restava
somente duas horas para suspender o tempo era curto, mas
parti assim mesmo para telefônica liguei e quando
ouvi a voz o reconheci era uma voz mansa calma não
conseguiu falar era meu irmão sua voz não
mudou nada continuava calma e suave como eu conhecia.
Na volta já no Rio de janeiro telefonei conversamos
bastante insisti para que voltasse para casa o que fez depois
de alguns anos trocamos fotos de família tinha três
filhos que ainda não os conheço prometi-lhe
que logo voltaria também mais ate hoje não
cumpri com a minha parte.
Faz pouco tempo que o visitei em Açu. Meu irmão
hoje com oitenta anos o rosto curtido corpo sem aquele vigor
da juventude. Senti pena meus olhos Toldaram-se com uma
bruma que logo se transformou em lagrimas em ver aquele
rosto desfeito e langoroso pela lassidão em que se
encontra.
Suas pernas, já não sustentam o próprio
corpo antes, alegre jovial e sorridente, não pude
evitar, que visse minha lagrimas.
O tempo e cruel com todos e com ele não foi diferente
com ele apagou tudo do seu passado sem nenhuma indulgência,
lembro-me como ele era vaidoso. O tempo também não
foi clemente comigo deixou-me marcas profundas desenhada
ha muito tempo atrás pelos caminhos ensolarados da
caatinga.
Passei cinco dias com ele, numa reunião de família
ele contou ainda muito lúcido, aquela história
do carro atolado, de como fui solicito para empurrar de
como o carro arrancou levando as minhas ferramentas e dos
meus impropérios. Já faz tanto tempo e ainda
assim rimos muito daquele momento de nossas vidas o que
ele conta muito feliz.
O Maiero ainda não mudou continua uma pequena vila
com uma estrada no meio hoje asfaltada, mas já não
estão os protagonistas dessa historia, nem as carnaúbas,
as testemunha de que estive ali.
Autor: Gilson
Cassiano de Góes
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