A tarde estava calma, só as folhas das árvores farfalhavam com a brisa fresca quando ouvi o radio tocar "Menina Linda" foi como um relâmpago minha mente viajou por caminhos e veredas empoeiradas trazendo lembranças e recordações que me levaram ao passado distante. Deixei minha mente embotada vasculhar as cinzas de minha juventude permeada de amores fúteis e apaixonados.

Cresci ouvindo Beatles, Renato, Feevers os ídolos do passado. Dono de um coração apaixonado cheio de sonhos, esquecidos apagados pela intempérie do tempo, que inexoravelmente apaga tudo, só resta as lembranças saudosas do passado, e a esperança porque essa e a última que morre.

Sem perspectivas para o futuro me conforta relembrar as passagens de uma juventude que não desejo esquecer porque o tempo a pagou tudo que amei os sonhos, e ilusões e desejos. Hoje ainda me vejo nas alamedas parcamente iluminadas da cidade da esperança, para onde costumava ir nas tardes de domingo. Ali no clube social, ao som dos reis da jovem guarda, recitava meus madrigais, As mais lindas moças do lugar.

Ali também deixava as minhas emoções juvenis.

Numa tarde cálida de setembro. Domingo quando ia para o clube, de cima da colina, uma pequena elevação que separava o bairro de Nazaré da cidade da esperança, ali do alto avistei a roda gigante toda iluminada fiquei todo animado era sinal de bons augúrios apressei o passo.

O silêncio só era cortado pelo som das cigarras na mata adjacente.

O chiado na areia sob os meus sapatos fez –me olhar para os meus pés cobertos da poeira cor chumbo. O céu estava plúmbeo, havia manchas arrubinadas no poente que ainda iluminava o dia quando cheguei.

Nas cercanias da primeira rua numa sebe peguei duas flores de hibisco comumente chamadas de graxa ali mesmo esfreguei no sapato roto que respondeu com lustro, no bar tomei água e limpei os dedos azulados da flor.

Ali encostado na roda gigante observava os transeuntes, garotos e meninas tolos como eu, aquele lugar era uma vitrine, por ali passavam gordos e magros, rostos nunca vistos.

O sol se recolheu para o sono, mas o ocaso ainda se recusava dar lugar à noite que abraçava o dia com seu manto escuro cravejado e estrelas, pouco a pouco as luzes do parque, acesas assumiram o clarão do dia.

De repente ouvi: “este é o serviço de radio difusão do parque São José iniciando seus trabalhos nesta noite. Para darmos inicio a nossa programação vamos brindar os namorados com música “Querida” do Jerry Adriany. Num dado momento vi a mais linda jovem segurando a mão de uma criança olhando muito feliz as luzes piscando da roda gigante fiquei olhando aquela moça quando foi para o carrossel.

Usava uma saia com listras finas amareladas acima dos joelhos, mostrando um lindo par de pernas brancas como alabastro, e sua blusa branca de elastec tinha pufs nos ombros e pelo decote generoso eu pude ver seu colo pontilhado de sardas.

Caminhava faceira e descontraída usava um sapatinho preto com rosto bordado de florzinhas doiradas. Naqueles dias os jovens usavam muito cabeleira dos Beatles a dela era loira igual de John Lennon.

Seu rosto era lindo e tinha umas sardas que em nada lhe enfeiava. Porém o que mais me chamou atenção foi seus olhos, lindos, mas pareciam tristes. Notei que ela também me olhava e tomei coragem e me dirigi a ela e num breve instante que olhei no seu olhar, das chama dos seus olhos nasceu o amor, tomando meu coração dominado pela luz do seu olhar. E naquela noite cálida comecei a namora-la.

O tempo passa a memória fica obscurecida pela rotina da vida, mas quando eu estava com ela o meu amor parecia um lago de águas claras, sob um horizonte infindável, porém as lembranças são muito tênues embaçadas pelo tempo.

Um dia fomos namorar na praia naquela noite sob o olhar alcoviteiro da lua nos abraçamos ouvidos o murmúrio do mar de vez enquanto as ondas mansas vinham ate perto de nos a espuma deixava a areia brilhando como cristais, outras mais fortes se desmanchavam nas rochas nos salpicando uma leve neblina que a fazia se aconchegar á mim, lá do bar sarava vinha um som inconfundível de “Coitadinha de você” nesse instante ela me abraçou e disse; essa música será nossa, e vivera para sempre em nossas lembranças.

Daí era comum, quando saia de sua casa ouvi-la cantar: “Quando seu namorado na despedida em lhe beijar e diz que vai pra casa"...

Mas o amor é como o mar, ás vezes calmo, e ás vezes revolto, mata e dá a vida mais é sempre mutável e trágico quando quer.

Naquela noite cheguei em sua casa ainda cedo e fomos a uma palestra de moral e cívica.

Na volta ainda cedo resolvemos namorar num escurinho do caminho, deserto e pouco iluminado.

O sol já mergulhava no horizonte como um interlúdio nostálgico do dia que passara, mas quando as abóbadas do céu fecharam–se para o sono, naquele instante eu sentia-me fascinado, meu coração estava em brasa com o calor ardente da paixão, por mais que eu queira não pude ignorar meu coração e seguir os impulsos bestiais, e fustigado pelas chamas do desejo fui cedendo a uma desvairada vontade de tocá-la, de sentir os seus lábios rubros juntos aos meus.

Tudo isso foi acontecendo, e nos íamos sendo envolvidos num resfolegar de suspiros e gemidos cansados. Eu não percebia se ela estava sendo conivente ou dissimulada, quem cala consente, num momento de fraqueza embalado pelo sentimento impetuoso da paixão, fui abraçando-a com sofreguidão de maneira lascívia e libidinosa.

Foi quando ela mostrou-se sublevar e me reprimiu severamente, e chorando copiosamente proferiu palavras gélidas que apagaram a chama candente da minha ardente paixão. Ficando somente as cinzas que me trouxeram a razão, deixando em mim um sentimento de culpa e um grande precipício a nossa frente.

Caminhamos juntos para sua casa.

Ela em pranto mudo, caminhava cabisbaixa, segurando os soluços, e nada respondia. Pelas suas faces corria um rio de lágrimas que brotavam dos seus olhos. Quando passávamos pelos postes de luz as lagrimas de suas faces brilhavam como aljôfares, na silva dos campos iluminados pela luz pálida da lua.

Quanto a mim, me abateu um sentimento de compunção foi como se eu tivesse cometido todos os pecados não permitidos, senti-me envergonhado, triste, um devasso, suas lágrimas eram como alfinetadas em meu coração.

Minha alegria acabou nunca mais fui o mesmo. Ela foi o amor que o tempo apagou, mas que não quero esquecer. Hoje ainda nas noites claras a brisa soluçante, ainda repete em murmúrios, essa história de adeus.

Mas sei que morrerei na certeza, que nunca mais verei, aqueles olhos tristes.

Autor: Gilson C. de Góes