
Já faz
tanto tempo, mas parece que foi ontem. Sempre me pego olhando-a pela janela.
Quando ela penteava os cabelos longos e doirados, como fios de ouro. Era
uma vestal no Olimpo, com gestos delicados a deslizar o pente, desembaraçando
o cabelo, que caía sobre o seu busto róseo. De vez em quando
olhava para o lado por debaixo dos olhos, sim eu estava a observa-la.
É assim a que a vejo, nas noites de insônia. Levo horas divagando,
rebuscando em meus pensamentos as tênues lembranças quase
sem rosto que a muito pensara haver esquecido. È assim que me vem
a mente recordações que massageiam o meu coração
e entristece a minha alma, meus olhos toldam-se e fico a pensar. Hoje
ainda como num sonho a lembrança dela ainda permeiam os meus pensamentos,
fazendo-me rebuscar as doces lembranças.
Faz muitos anos, eu morava em Nazaré, um bairro no subúrbio
de Natal, não havia quase nada só uma meia dúzia
de ruas arenosas e esburacadas. Algumas casas de taipa, velhos pardieiros
só alguma de tijolos branco era realmente um bairro de gente humilde,
lembro minha casa feita de taipa, somente com uma porta e uma pequena
Janela parecia mocambo de pé de serra, éramos sós
eu e meu pai, que a seu modo se esforçava para que eu tivesse o
melhor. De fato quase nada, quanto à educação eu
recebia que ele tivera meus avós, mas íamos vivendo.
Um dia de janeiro numa manhã ensolarada veio uma família
nova morar na casa em frente, nada de interessante só uns três
rapazes que logo se tornaram meus amigos, e suas duas irmãs mais
jovens uma loira, e outra morena. A loira logo nos primeiros dias conquistou
meu coração, ainda havia outros, mais muitos pequenos. A
janela de minha casa dava para a janela da casa da frente não era
comum dar de cara com alguém da outra casa.
Eu passei a ficar mais tempo estudando porque a mesa dava pra janela da
casa dela, na esperança de ver aquele rosto lindo que me fascinava.
Emoldurado na sua janela. Era raro alguém aparecer, mas quando
aparecia, esse alguém era sempre a ela a minha musa a mais velha
a loira.
Tinha um corpo de princesa bem delineado rosto redondos cabelos ruivos
com mexas doiradas lábios finos e sensuais seus olhos me encantava
eram castanhos esverdeados, não sei dizer a cor certa só
sei que eram lindos, até hoje não compreendo como amei tanto
uma pessoa e sei tão pouco a respeito dela. Tinha algumas espinhas
no rosto que às vezes pareciam mais vermelhas do que o normal,
mas eu não me importava aqueles pontos vermelhos em nada lhe enfeavam.
À noite quando voltava da escola, caminhava pelas ruas desertas
e silenciosas, parcamente iluminadas só ouvia o chiado da areia
sob os meus pés cor de chumbo pôr causa da poeira que levantava
em virtude dos meus passos rápidos: Olhei para o céu lá
estava a lua, que todas as noites iluminava meus paços, parecia
querer sorrir com seu rosto prateado, como a zombar das bruxuleantes chamas
dos candeeiros postos nos umbrais das portas.
Quando passava em frente à janela da casa dela sempre tive a sensação
de estar sendo observado pelas gretas da janela, que deixavam passar uma
luz tênue, bruxuleante, de candeeiro, às vezes ficava a espreita
para ver se via alguém, às vezes alguém passava cortando
os fracos fios de luz que saiam pela fresta da janela. Sempre me perguntava
que será.
Quem seria? Um dia vislumbrei um rosto olhando através da janela,
entre aberta iluminada pela pálida luz da lua era ela a moça
de cabelos loiros me estremeci todo, mas fiquei feliz. Ela fingiu que
não me observava e continuou impassível no seu quotidiano,
mas quando se ama, os olhos confessam, o que não se diz com palavras,
quando eu estava em casa ela passava muito tempo na janela do seu quarto
ou arrumando algo de forma que dávamos de cara um com o outro dai
passei a mexer com ela e a mandar beijinhos.
Por essa época meu pai trocava mais de mulher do que de camisa,
isso naturalmente era um mau exemplo, para mim, pois se comentava: filho
de peixe peixinho é, ate por que eu também andava me envolvendo
coma filha da vizinha do meu lado da rua. Mas quando se é jovem
corremos certos riscos e não costumamos ser prudentes nem moderados
talvez porque na juventude o tempo passa muito depressa.
No verão nordestino os dias são longos de sol candente e
terra, abrasada. As noites são cálidas e agradáveis.
Nesse clima eu passava os meus dias de maneira frívola e desbragada.
Muito embora eu namorasse outras moças, mas acalentava uma paixão
secreta pôr aquela moça misteriosa. Ao completar 18 anos
alistei-me na marinha juntamente com o irmão dela o do meio, fomos
bons amigos durante algum tempo.
Após terminarmos o período formação fui servir
em Recife passei uns anos por lá quando voltei, meu pai tinha casado.
Encontrei uma nova família, mais três irmãos, fui
compelido a me adaptar, me reajustar a nova situação, porém
tive a agradável supressa de saber que aquela jovem era amiga de
minha família daí foi fácil começar um namoro
que logo percebi que não era do agrado dos pais dela. O seu pai
senhor austero agia de maneira despótica, era o senhor absoluto,
sua mãe era muito atenta não dava folga.
Um dia, fui visto com outra garota pela irmã dela, logo toda família
aproveitando a situação para envenenar, colocou um pouco
de sal na história tentando macular a minha imagem de forma que
ela ficasse contra mim e proibiu-a de falar comigo. Eu era visto como
um garoto leviano, mas ela não se importava alterosa, sofria calada,
todo laivo que min era assacado.
São essas coisas que fazem o amor ser lindo. Quão certo
estava pascal quando disse! “O amor tem razões que a própria
razão desconhece”, não sei como ela suportou ouvir
tantos vitupérios a meu respeito é permanecer casta sem
se sublevar. De vez em quando eu a via triste macambúzia em alta
lucubração sabia que era por causa das farpas atirada contra
ela por minha causa. Mas ela era constante no seu amor, assim como o sol
na sua jornada, inexorável através do firmamento.
Certo dia ela soube que eu andava me encontrando com a filha da vizinha
do lado direito houve muita conversa muita fofoca isso trouxe sérios
problemas ao nosso relacionamento minha amada que mesmo sob a minha mais
sincera negação deu-me um fora que me deixou consternado
para alegria da sua família. Percebi que ele guardava, no seu coração
insondáveis mistérios de amor. Porque tudo suportava, mas
nunca aceitou a divisão do seu amor.
Passamos muito tempo sem nos ver, mas aquela janela sempre nos traia vez
pôr outra dava de cara com ela dávamos um sorriso dissimulado,
mas meu coração enchia-se de felicidade. Seu sorriso me
fascinava, alimentava o meu o coração de esperança
assim como o rio alimenta o mar, eu continuava apaixonado e alimentava
a esperança de ter o seu amor novamente.
Mesmo nos vendo esporadicamente eu ficava auspicioso quando voltava para
casa sempre na esperança de ver a minha amada, às vezes
demorava em frente a minha janela, olhando para janela do seu quarto na
esperança de vê-la, e assim acalmar a minha alma. Numa tarde
cálida mandei-lhe um recado apaixonado Pela sua irmã que
queria lhe falar.
Chegou à tardinha o sol mergulhou no horizonte numa explosão
de ouro e rubro, o céu tingia-se de vermelho e as nuvens fechava-se
como um manto cobrindo o sol para o sono. Eu fui para encontro na certeza
que ela iria ledo engano ela não apareceu, e não mandou
nem um recado. Sem esperança de vela, fui dormir consternado, ferido
nos meu mais profundo sentimentos. Nos meus devaneios, levei horas remoendo
a minha angustia.
Compelido pelo sono seu rosto foi saindo da minha mente como uma bruma
relutante em dissipar. Com os olhos cansados sua imagem foi se desvanecendo
como um véu e adormeci olhando as estrelas pelas frestas do telhado.
Ouvindo o dueto dos galos seresteiros da madrugada, na esperança
de vê-la no dia seguinte. Passaram se os dias eu continuava na esperança
de voltar para ela, mas tudo deu errado, pois a prima da vizinha começou
a dar em cima de mim.
Um dia essa moça me chamou para ir com ela ate a casa de um parente
fui ate que percebi que tudo era armação da tal garota ai,
me veio a maldade que também ela tinha. Caminhamos pôr entre
as veredas e moitas de carrapichos, fomos muitos assediados por muriçocas
e mutucas que picavam as nossas pernas a todo instante, mas fomos enfrente
ate que fomos visto pôr um moço que nos segui, e, mas tarde
encontrou o pai da minha ex-namorada que também nos segui. Escondido
pôr entre as dunas de areia vermelha da linha de ferro.Nos caminhamos
pulando sobre os dormentes.
Até que chegamos a um local bem protegido, “pelo menos parecia”
entre duas dunas de areia começamos a nos beijar com sofreguidão.
Quando eu estava quase a possuindo ouvi um tiro era o pai de minha ex
-namorada que vinha em nossa direção levantei-me às
pressas para ver o que acontecia. O velho ficou pasmado, pois não
havia me reconhecido antes, então envergonhado se afastou na maior
pressa. Mais tarde senti na pele o peso do meu ato, fiquei muito compungido,
mas era o pago pôr levar uma vida tão dissoluta. A princípio
pensei que ele o pai dela não fosse mencionar isso para família,
ledo engano o meu.
Ele
contou tudo para a esposa que contou para a filha no dia seguinte cruzei
com ela vindo da escola tentei lhe pedir perdão, mas debalde nem
quis falar comigo enquanto se distanciava olhou para traz e eu pude ver
suas lágrimas ralarem sobre suas face. Soube depois que chorara
ate não ter mais lágrimas. Foi ai que perdi toda esperança
de tela de novo.
Fiquei com muito medo acabrunhado e temeroso Porém essa moça
estava realmente obcecada pela sua fantasia de me levar cativo aos prazeres
da concupiscência, mesmo depois desse acontecimento ela, me disse:
logo mais à noite me leva em casa! Eu concordei. E passei o resto
do dia excitado com a expectativa do encontro.
E fiquei de espreita quando ela saiu da casa da prima, a segui como combinado
no caminho ela me disse que estava sozinha em casa e que os seus pais
estavam no interior podíamos ir para casa dela sem nenhum problema
de imediato concordei. Era um domingo claro e ensolarado eu estava com
a minha primeira calça de tergal que eu avia comprado naqueles
dias. Era cor de grafite e brilhosa eu estava muito jactancioso. Demos
as mãos e caminhamos pelas ruas empoeirada do Bom Pastor, seus
pés, estavam cinzas da poeira cor de chumbo, que subia da estrada,
por onde caminhávamos.
Quando passamos pôr de traz do cemitério tive a sensação
de sermos observados e deu-me um frio lúgubre que me arrepiou dos
pés a cabeça, tive vontade de correr porem ela não
demonstrou nenhum sintoma de estar com medo eu não podia fazer
feio alem do mais eu era da marinha, conscrito recém formado. Chegando
na casa dela uma meia água em ruínas com aporta amarrada,
de barbante num prego do portal. Ela fez sinal para min não fazer
barulho e entramos de mansinho ela me alertou mais uma vez para não
fazer barulho, perguntei porque, ela disse:
Meu avo mora do lado fiquei cabreiro mais já estava lá e
fui entrando seguro pela sua mão que tremia. Ate que parou junto
a um portal ali fiquei em pé. No escuro não percebi que
ela tirava o vestido e o punha junto com suas roupas intimas sobre um
banco al lado da cama. Já abraçava aquele corpo franzino
e quente, beijando a sua boca linda. Quando senti o toque de sua mão
penetrando nas minhas calças soltando o cinto quando uma pessoa
do outro lado da parede pigarreou e ascendeu um candeeiro só ai
viu que a parede era toda furada, pois os raios de luz passavam através
dos buracos da parede neste momento alguém pergunta.
Quem esta ai! Ela no lugar de responder sai correndo e eu a acompanho
ouvindo os cães ladrar atrás de nós ate que percebo
os cachorros nos meus calcanhares, e de repente afundei como se caíra
em areia movediça. Pelo cheiro pútrido percebi que estava
atolado na maré que pôr sorte estava baixa. Sai nadando pelo
lago de lama entre os manguezais até alcançar uma saída
que dava para rua.
Saí do outro lado numa rua deserta e sob a luz opacas do poste
ficamos tirando a lama das nossas roupas, nas poças de água
pluviais, pois havia chovido ainda apouco. Enquanto eu tirava as nódoas
de lama pútrida da minha calça nova de tergal ela seus pequenos
olhos pareciam um rio de lagrimas, chorava desconsoladamente e se lamentava,
era o medo de voltar para casa!
Como poderia encarar os seus avós?.
Nesse instante ainda posso ouvir os seus lamentos e seu choro ofegante
pedindo-me para que eu não a deixasse, mas que eu podia fazer?
Mandei-a para casa. Só muitos dias depois sua irmã perguntava-me
quem era o meu amigo que saiu com irmã dela fiquei gelado e temeroso
o medo tomou conta de min, mas tudo passou afinal eu não estava
devendo nada.
Fiquei, mais sujo que pau de galinheiro, a tristeza me corroia porque
alem de tudo eu era difamado como um meliante sem decoro um devasso levei
muito tempo andando triste macambúzio não levantava a cabeça
procurando eclipsar o meu sofrimento, me acostumei com a idéia
de tê-la perdido e continuei a minha vida afinal o mundo não
termina só por causa de da perda de um grande amor.
Continua...

Autor:
Gilson Cassiano de Góes
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