

Sentado
sobre o convés corroído pela ferrugem, olhava as águas
que passavam velozmente se arrastando no ferro do trapiche, fazendo colares
de espumas brilhantes como poerolas, e se desfaziam em vapores levados
pelos ventos frescos da manhã.
Ali costumava a olhar os desfile das jangadas que partiam para o mar levando
homens, sonho e paixões e o desejo de uma boa pescaria. Eram homens
rústicos de mãos calejadas, de rostos rugados curtido de
sol e sal.
Por ali via passar as rústicas embarcações com suas
velas brancas, infladas com o vento matutino. De vez enquanto um conhecido,
de longe dava coma mão e eu respondia feliz por ser notado.
Todas as manhãs quando Ubiraci saia pro mar, costumava a ver Piedade
parecendo uma pirata correr para pedra da barra e lá levantava
o filho à altura da cabeça para que a Ubiraci o visse, ali
permanecia ate que ele sumisse na linha do horizonte.
Depois da saída dos homens para o mar a vila ficava desertos só
alguns velhos ficavam costurando redes e velas. As mulheres em suas choupanas
de palhas faziam renda que seriam vendidas na feira da roca no domingo.
As crianças na maioria ajudavam as mães a levar o peixe
salgado para o sol. Seu Tota parecia um gafanhoto, debaixo de um coqueiro,
pacientemente costurava uma rede com nós de fiador, eles se gabava
de ter pescado o maior peixe por ali passado enquanto Dona Cícinha
costurava o enxoval de Piedade que casaria em maio com Ubiraci.
Lá para as cinco da tarde os jangadeiros começavam a retornar
e as famílias se concentravam na praia aguardando achegada das
jangadas algumas abarrotadas de peixes, ali todos trabalhavam na despesca
dos barcos e limpeza ou salgando o peixe.
Visto que naqueles dias não havia como armazenar o peixe fresco.
assim era a rotina da vila que só era alterada quando acontecia
a demora de alguém voltar do mar.
Era sábado o dia amanhecera nublado havia prenúncio de mau
tempo. Ubirací faria sua ultima pescaria de solteiro, casaria no
domingo.
Os amigos disseram para ele não ir, mas Ubiraci era decido e tinha
fama de ser o melhor pescador da vila nem o pedido de Piedade o fê-lo
desistir, além do mais era sua ultima pescaria e solteiro.
Naquele dia o mar se enfarruscou muitos voltaram não quiseram se
arriscar num mar tempestuoso.
À tarde “Pie” como era chamada ficava no alto da pedra
esperando a volta de seu amado com seu filho nos braços até
que passasse do quebra mar então vinha para praia.
Mas naquele dia Bira estava demorando e com a passagem do tempo a demora
tornou-se desespero todos voltaram, Bira não voltou.
Esmeralda ficou esperando com seu filho naquela noite na pedra da barra.
De manhã o mar ainda vergastava a praia com ondas poderosa que
se desfazia sobre a areia deixando colares de espumas prateadas. Sobre
as dunas encontraram a jangada de Bira praticamente desmontada e a vela
toda esfarrapada a mostrar a violência do mar.
Os dias passaram e Piedade continuou na esperança de Ubiraci voltar,
mas, Bira nunca voltou. No dia do casamento ela vestiu-se de noiva e foi
para pedra da barra, sob olhares lascivos e lidibinosos, e risos dos biriteiros
da tenda de seu Raimundo.
Passou a viver sempre olhando o mar com seu filho.
Meses depois, a dona Cicinha a mãe da louca morreu, no enterro
Piedade estava passiva, mas não derramou nenhuma lagrima.
Depois disso a vida de Pie ficou difícil vivia da caridade das
mulheres para alimentar o filho. Quem passasse na entrada da barra sempre
via uma noiva com um filho nos braços e passaram a chamá-la
de noiva da barra. Um dia circulou na vila a notícia que Piedade
havia desaparecido.
Houve muitas buscas pelas praias e dunas da região.
As
mulheres da vila choraram a sua ausência rezaram terços e
fizeram novena e sua intenção. Mas Piedade nunca mais apareceu.
Desde aquele dia quem cruza na barra, nas noites tempestuosas ouve um
choro, de mulher acalentado um bebe.Com o passar dos tempos, nas noites
tempestuosas as mulheres da aldeia passaram a levar leite a te a pedra
para acalmar o bebe de Piedade.
Anos mais tarde explodiram a pedra do cais para aumentar o canal e o mar
não quebra mais na pedra do cais, mas noites de tempestade quem
entra na barra não pode deixar de ouvir o acalanto de Piedade constante,
como o fluxo e o refluxo do mar mesmo à morte não conseguiu
separar-lá do seu grande amor.
Aquela praia não é mais vila de pescadores, deu lugar a
palacetes e mansões e ninguém lembra mais da morte de Piedade
Autor: Gilson Cassiano de Góes
08
de outubro de 200
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