Ainda recordava as lembranças do ultimo porto. Nos meus devaneios, ainda ouvia o som do trompete solitário tocando “Carinhoso” em quanto o navio se distanciava do cais solitário e frio. Suspendia daquele porto para nunca mais voltar.

Aquele trompete parecia chorar era um som lamurioso de adeus, estávamos deixando o porto de Oslo. Estávamos eufóricos finalmente estamos voltando para casa, mas eu nunca mais esqueci daquela despedida triste.

As lagrimas do trompete choroso que foi se distanciado até que não ouvi mais, olhei para o cais deserto somente uma esfinge humana ainda acenava com lenço na beira do cais.

Era já noite, quando ouvi o fonoclama, guarnecer postos de fundear. Após a voltas aos postos de fundeio subi ao convés e me deparei com uma lua enorme, sobre as águas revoltas. Havia uma pista iluminada que vinha desde o horizonte ate o navio.

Fiquei observando aquela luz que iluminava as águas tormentosas e as ondas furiosas que se rebentavam contra o costado do navio. Parecendo quere-lhe espremer suas bordas. De repente uma onda mais atrevida atirou-se sobre a meia nau, escorrendo pelo convés e dissolvendo-se em gotas prateadas espalhadas pelos ventos cálidos do norte, molhando–me o rosto.

Senti um gosto de água doce só então percebi que estava no estuário do rio Amazonas então fiquei a imaginar o espanto pelo qual o navegador espanhol Vicente Yanez Pizon disse: ”Mar Dulce” ao perceber a que estava navegando em água doce ainda tão distante de terra.

Eram oito horas da manhã quando o pratico embarcou para nos conduzir pelo canal marítimo ate o porto de Belém ainda navegamos quase o dia ate podermos atracar. Durante a travessia, na linha do equador houve a cerimônia de batismo. Uma tradição naval onde quem cruza a linha do equador e batizado, logo a banda estava tocando no convés e marinheiros fantasiados formavam a corte de Netuno.

Vestido a rigor de tridente e tudo, batizava os marujos de primeira viagem, “Saibam todos que Eu Netuno Rei de todos os oceanos mares baias e enseadas varridos ou não benignamente resolvi conceder o batismo equatorial a Gilson Cassiano de Góes que será conhecido em meus domínios como Cors@rio que em minha alta presença teve lugar a bordo do valente “Custodio de Mello” meu barco predileto.

Logo após atracação foi tocado banho e uniformes, para licenciados. Fui à coberta ”1” avante e chamei o Maurílio “Vamos dar um soco ai pela cidade parceiro!” O que ele me respondeu: “Vou não campanha só vou baixar terra na Bahia” eu sabia que ele não ia pôs há meses que ele não ia para o chão tinha virado mexilhão era crônico em virtude da promessa de casar com a Jerusa uma nega baiana que lhe tinha arrebatado seu coração numa viagem anterior.

A vida solitária do mar nos deixa fragilizados de forma que nos apaixonamos em cada porto e sempre que partimos deixamos uma saudade, e navegamos para outro porto na esperança de um dia volta e encontrarmos aquele grande amor. Por isso em cada porto temos um amor. Mas não era o caso do meu amigo Maurílio que durante a viagem foi fiel a Jerusa lhe enviando os parcos salários para compra de moveis e utensílios para o lar que em breve iriam construir.

Casos de amor e de paixões nos portos sempre acontece de vez enquanto, somos envolvidos pelas paixões de outras terras, alguns tem o cuidado de não permitir que estes encontros casuais se transformem em laços, muitas vezes já temos nossos amores no nosso porto de origem.

Naquele mesmo dia o navio zarpou com destino a Manaus, na passagem do estreito de breves todos nos reunimos no convés e nos pelórios de BB e BE a nossa proa havia muitos ribeirinhos que gritavam: Joga cunhado! Joga cunhado! Muitos haviam levado roupas, alimentos, em fim todos cooperavam com alguma coisa, quem viaja à aquela região sabe das necessidades daquele povo das margens dos rios.

Do espardeque vi Maurílio arrumando um saco com alguma coisa dentro fazendo menção de atirar, rindo de modo sardônico. Remando ao lado do navio três garotos gritavam: “Joga cunhado! Joga cunhado! Filho da puta” Pobre crianças ainda são ultrajadas, alguém atirou um pão pela borda logo as meninas mergulharam e subiram com o pão encharcado, mais inteiro e o puseram arrumadinho e cima do barco uma pura demonstração que para os moradores ribeirinho nada e inútil tudo serve.

Dois dias subindo o rio avistávamos somente água e céu azul, de dias tépidos e ensolarados, vez enquanto víamos os rebocadores arrastando centenas de toras de madeiras de rio a baixo. No terceiro dia o céu se enfarruscou e caiu um temporal, as águas ficaram tão agitadas que pensei esta no mar.

A tarde era de cólera os relâmpagos eram os únicos brilhos nos céus e iluminavam as nuvens carregadas, mas tudo passou com a chegada da noite cálida. Nessa travessia reuníamos na popa do navio e ali rolava um pagode. Os marujos ao som de pandeiros, cavacos e repenicas invocavam os ritos de origens africanas que iam ate altas horas da madrugada cortando o silencio das águas que passavam silenciosas.

Naquele dia estava saindo de serviço olhei pela vigia e fiquei ali sentado ouvindo o murmúrio das águas, a contemplar através do luar de prata as sombras negras das arvores que se debruçavam sobre o rio, que descia sonolento. Esperei ate o sol nascer pôr completo. O rio refletia as cores vivas das arvores da outra margem, o purpúreo da manhã debruçava-se por sobre o verde da mata que se espreguiçava ao sol ao longo das margens.

O navio ia fazendo uma ondulação nas espumas brancas e suja na divisão das águas dos rios negro e Solimões. As águas negras do rio negro refletiam o doirado do sol quando avistei a cidade. No porto se podia ver a multidão que se aglomerava. Carros reluziam ao sol, muitas sombrinhas protegiam as damas que buscavam um rosto conhecido no navio, pois havia muitos filhos da terra a bordo. Ouvi o tiro da carabina e o fino cabo de retinida fazer um arco no ar e logo os marujos encapelavam os cabeços, ouviu-se o apito o navio estava atracado.

Aproximei-me da borda e fiquei a olhar as pessoas ali esperando seus parentes aguardando a hora para também baixar terra. Sentado em um carro preto estava um cidadão de terno clube "Um" muito elegante tive a impressão de conhecê-lo, mas fiz que não vi. Logo o moço saiu do carro então reconheci um colega de turma era o Rodrigues gritei: “Rodrigues!” De longe me acenou com a mão e disse: ”posteriormente dialogaremos “ fiquei frustrado, você chega numa cidade desconhecida e acha um amigo e recebe uma resposta dessa, fiquei desbalanceado, ainda comentei com o Maurílio éramos da mesma turma.

Muitos anos se passaram ate que um dia reencontrei o meu amigo Rodrigues na base naval fiquei consternado ela havia sofrido um TCE e tinha ficado com uma seqüela que o deixara deficiente, mas não inútil. Foi uma grande alegria poder recordar os nossos momentos alegres do tempo de escola. Hoje ainda lembro o incidente no porto de Manaus e rimos muito, continuamos grandes amigos.

Passava das dez horas quando avistamos o farol de Itapoã, daí em diante podíamos ver as areias brancas bordadas de coqueiros de copas arredondadas olhando para céu, cobriam a praia ate perto da barra. Havia um reboliço nas cobertas os filhos da terra arrumavam os goodes (presentes) embalavam pacotes, o meu colega Maurílio era só felicidade sairia na primeira licença era filho da terra.

Na altura da barra destacava-se o farol majestoso como sentinela dos mares. Não muito distante as vidraças refletiam como espelhos o os raios fúlgidos do sol enquanto entravamos garbosamente em Salvador.
Passaram-se muitas horas depois do licenciado. O sol já descambava no horizonte o calor era abrasador de vez enquanto, o João das botas partia em direção a Itaparica soltando anéis de fumaça negra pela chaminé. Eu ficava olhando com saudades de um grande amor que um dia conheci ali.

Subitamente o telefone toca insistentemente não demoro a atender uma voz de mulher do outro lado perguntou: E do navio da marinha? Respondi sim então a pessoa redargüiu: Venha depressa Maurílio esta querendo destruir tudo aqui em casa, vou chamar a policia! Comuniquei ao contra mestre e oficial de serviço e foi formada uma escolta. Partimos sem delongas para o largo do tanque ali na casa encontramos Maurílio acuado ferido de morte, sua raiva transbordou como um rio que passa sobre a represa, dizia: Só saio daqui depois que me devolver tudo que mandei se não, quebro tudo e toco fogo.

A policia já havia feito o BO de forma que fomos parar na delegacia, onde Maurílio contou o ocorrido. Passara o ano todo juntado o salário e enviado para Jerusa alimentando o sonho do casamento. No dia que chegou na casa dela, ficou plantado na sala esperando por quase uma hora, enquanto ela tomava banho. De chofre entra casa um moço sem camisa de bermuda suado vinha do futebol e vai direto ao banheiro, onde sua amada se banhava.

Há! Isso foi demais! Maurílio foi ver o que se passava. Chegando no banheiro deu de cara com sua noiva abraçado sob o chuveiro com o tal sem camisa, ele não pensou duas vezes entrou e baixou o sarrafo veio o vizinho, o pessoal do deixa pra la, mas Maurílio estava indócil jurava que ia quebrar tudo. Depois veio a decepção foi lhe informado que Jerusa estava casada com o tal descamisado.

Ele era só visita. Pior ainda foi obrigado a pagar o guarda roupa que havia destruído na sede de vingança. A bordo foi motivo de guerra da rapasiada e mais tarde tornou-se alcoólatra. Já se passaram muitos anos nunca mais o vi, mas ainda posso lembrar daquele dia nefasto em que o vi na viatura policial, parecia um bicho acuado gesticulando, seus olhos pareciam sair chamas de fogo que pudessem consumir a sua ira.

Hoje depois de tantos de reflexão descobri que a vida é curta, mas as e as decepções do passado duram uma eternidade. A infelicidade chega sem aviso, e a dor de um coração ferido por efêmero que seja um grande amor, só cura quando se morre.

Autor: Gilson Cassiano de Góes