Passaram
se muitos anos até que nós nos
encontramos novamente, disse-me que havia
dado baixa da marinha, e que estava morando
em Niterói. Naqueles dias eu morava
no Gramacho, normalmente saia de bordo por
volta das quatro horas, quando não
havia nenhum empecilho, visto que naqueles
dias tinha impedimentos em virtude de problemas
políticos, greves, e outros motivos,
tocavam regime especial, e éramos impedidos
em sair de bordo.
Eu pegava um barco, o boi da esquadra que
passava de hora em hora recolhendo os licenciados
dos navios fundeados.
Por aqueles dias ficavam muitos navios fundeados,
prontos para suspender. Isso levava de trinta,
a quarenta minutos, desembarcava na praça
Barão de Ladário, caminhava
vinte cinco minutos até a Central do
Brasil, pegava o trem até a Leopoldina,
e ali pegava o trem a óleo ate o Gramacho.
Os ventos procelares me traziam para casa,
por volta das vinte horas. Foi quando recebi
o convite do meu amigo para vir morar em Niterói,
fiz das tripas coração, mas
consegui alugar uma casa ali pertinho do meu
colega.
Com o tempo comecei a ouvir os comentários,
quando Luzimar passava. Quando ele chegava,
que a Brasília azul estava parada na
sua porta, ele parava no boteco e tomava duas
cervejas, e jogava sinuca, até que
a Brasília saísse, enquanto
isso Sofia ruborizava-se nos braços
do amante.
O gênero humano sempre se deleita enormemente
em conhecer, decantar os feitos alheios, de
forma que quando Luzimar passava, algumas
senhoras ficavam tecendo comentários
por traz das portas, julgavam–se patronas
da decência e da moral. Muitas injuriavam
a Sofia, mais por inveja que por vergonha.
Não por ela adornar o marido, mas por
lhe invejar o amante, na realidade muitas
tinha suas inclinações enrustidas.
Um dia lhe perguntei, se ele lembrava da nossa
conversa no passado?
Respondeu que sim, mas amava sua mulher, ele
cobriu-se da cor da tristeza, com que vestiu
o corpo, e seu semblante.
Disse:-tenho suportado tudo para manter a
minha família, não quero nem
saber o que ela faz, além do mais lavou,
ta novo. Não julgo a baixeza desse
crime diminuído pela grandeza da injuria,
mais gostaria de ter um coração
altruísta, capaz de perdoar em nome
do amor.
Fiquei a imaginar como é a natureza
humana, a perfeita virtude, através
dele, pude contemplar a beleza de seu coração,
vi que o vicio e só um desvio da natureza,
como enfermidade do corpo.
Era sexta feira, o sol já havia se
posto, e o arrebol ainda estava vermelho,
quando a Brasília azul, parou no boteco,
o moço desceu e pediu uma cerveja,
e todo os fregueses saíram apressados
dizendo; É hoje!
E ficaram na espreita, mas nada aconteceu.
O
nosso herói pagou sua bebida e saiu
calmamente, porém não demorou,
logo estava de volta, foi entrando e pegou
o tal pelo pescoço, e enfiou-lhe uma
saraivada de socos e ponta pés. Chegou
o pessoal do deixa pra lá, e separou
a contenda entre os combatentes. Luzimar olhou
para o pérfido oponente caído
no chão e disse você pode comer,
mas não pode bater, mulher de homem
se respeita.
Cação era o sujeito com quem
Sofia traia seu marido, este continuou a rondar
a casa. Porém, Sofia não o quis
mais, talvez por causa do acontecido. Uma
tarde quando Luzimar jogava sinuca no bar,
chegou o Cação bêbado,
e após tomar mais três pingas,
começou a insultar o Luzimar, chamando-o
de chifrudo, logo foi advertido pelos colegas
“Para com isso, cheira a morte”. Luzimar ficou
indignado, e ofendido, contudo suportou com
a sóbria e prudente reserva de sua
índole.
A bebida em realidade não põe
as avessas à natureza, nem cria nos
homens paixões, que neles não
existem, antes afasta as sentinelas da razão,
e obriga os apresentar os seus sintomas, que
muitos quando sóbrios, tem arte suficiente
para dissimular. Luzimar disse: “Para com
isso você esta bêbado vá
para sua casa descansar” ao que Cação
respondeu: Que nada você e corno mesmo!
E tem mais uma coisa pessoal, diante de todos
presentes disse: Ela tem um sinal na, e disse
o local onde era o sinal, virou as costas
e saiu cheio de empáfia. O álcool
aumenta e inflama nossas paixões e
por via de regra, a parte que predomina em
nosso espírito, e a índole colérica,
exibida nas taças. O nosso herói
valeu-se do recurso da cólera desafogando
sua ira no seu desafeto.
Cação ainda não tinha
descido o ultimo degrau da calçada,
quando recebeu dois tiros o queima roupa,
caiu fulminado. Três meses depois Luzimar
foi solto por hábeas corpus, dois anos
depois foi a julgamento popular, foi absolvido.
O juiz entendeu que ele matou em defesa da
honra.
Não demorou muito Luzimar partiu com
a família, para lugar desconhecido,
e nunca mais soube noticia dele. Observei
que a desgraça tende mais a exercitar
o desprezo que a comiseração,
principalmente entre os homens inaptos, aos
sentimentos pessoais.
Depois de alguns dias ninguém falava
mais no acontecido, uma tarde fui visitar
meu amigo na cadeia, lá estava a sua
esposa rosto cansado e lacrimoso, assim que
me viu verteu suas perolas com a mesma rapidez
com que as crianças choram pelos presentes
negados, carpi-se, era uma cerimônia
que ela nunca omitia nas ocasiões apropriadas.
Enquanto a torrente de lágrimas corria-lhe
abundantemente pelo rosto, passava as mãos
por entre os cabelos do Luzimar, eu quase
disse: “cuidado para não furar as mãos”.
A beleza e os encantos da amizade são
fortes para os olhos ofuscados enxergarem,
nem e percebido por outra norma, se não
a do bem, nenhuma outra pessoa o visitou,
além de mim.
Uma
amizade que a deusa pagã, um dia quis
perverter.
Autor:
Gilson Cassiano de Góes