O
dia amanhecera
cinza e frio.
Nada se via
meus pensamentos
divagavam,
quando ouvi
um apito longo
e solitário
de um navio.
Fitei bem
o a baía
e lá
no meio da
neblina apareceu
a silhueta
de um navio
como se saísse
de uma nuvem
de cinzas.
De repente
minha mente
embaçada
trouxe-me
lembranças
que pensara
ter esquecido.
Mesmo depois
de ter desembarcado
a minha mente
ainda continua
a viver no
mar.
Aquela manhã
cinzenta,
nada se via
só
o escumalho
das águas
passando pelas
bordas do
navio. Somente
a buzina era
ouvida em
cinco em cinco
minutos, cortando
a neblina
para chamar
a atenção
da nossa posição.
Vez por outra
ouvíamos
um barulho
de máquinas
rebuscávamos
na massa branca
as sombras
que passava
como fantasmas.
Da alheta
de boreste
protegido
do vento pela
antepara,
eu avistava
a bandeira
do cruzeiro
tremulando
no pau do
jack.
A neblina
já
começava
a se dissipar
quando o fonoclama
tocou Belmonte
rancho geral
o caldo será
servido na
popa “antigamente
era servido
um caldo de
carne ou frango
por volta
das nove horas”
em quanto
bebíamos
o caldo quente
e revigorador
começávamos
a avistar
ao longe as
silhuetas
das montanhas
como sentinelas
do mar iam
ficando para
traz.
Enquanto singrávamos
as águas
numa rota
para o sul.
Quanto mais
nos aproximávamos
do Rio Grande
do Sul mais
frio ia ficando.
O navio estava
todo fechado
para evitar
a circulação
do minuano
gelado, as
ventilações
estavam desligadas,
mesmo assim
ainda o frio
ainda entrava
nos ossos
era preciso
vestir a japona.
Naquele dia
o sol se escondeu
mais cedo
no horizonte
vermelho e
frio. Ainda
havia luz,
quando o pratico
embarcou na
entrada de
Rio Grande,
e seguimos
viagem para
Porto Alegre
eu tinha muita
expectativa
era minha
primeira viagem
a essa cidade
e foi a única.
No segundo
dia de viagem
na lagoa dos
patos fui
despertado
pelo cabo
auxiliar :
“campanha
estão
de te chamando
na bravo dois”
levantei-me
e enquanto
me vestia
o macacão
ouvi o cabo
auxiliar despertando
os outros
que iria entrar
de serviço.O
cabo Reis
era bem magrinho
de rosto afilado,
moreno de
orelhas grandes
por isso lhe
chamavam de
morcego.
Tinha uma
fala mansa
mas de um
timbre metálico
que irritava
principalmente
no silencio
da madrugada.
Já
havia espertado
todo mundo
na coberta
enquanto escovava
os dentes
ouvia as reprimendas:
“Silencio
quero dormir,”
inda posso
ouvir o Reis
falar com
sua voz de
corrente:
“levanta Matuto
você
vai entrar
de pau, é
você
que me rende.
Na terceira
vez o matuto
respondeu
sai pra lá
morcego filho
da puta vai
chupar sangue
noutro lugar
ouve um riso
geral. Finalmente
todos de pé
o Aluízio
chegou perto
do reis e
disse:” Me
empresta a
japona lá
em cima esta
muito frio?
Esta mas não
empresto seu
matuto filho
da puta! Retire
o que disse
morcego safado,
os dois saíram
no tapa foi
o maior rolo
de japona
que vi socos
e pontas pés
para todos
os lados,
ate que os
antigos separam
a contenda.
Cheguei na
praça
de maquinas
e encontrei
o Dinarte
trabalhando
ai ralamos
o dia e quase
a noite toda
consertando
os motores
de arranque
dos diesels
propulsores.
No dia seguinte
encontrei
o Matuto e
Morcego, no
rancho, o
Morcego com
o olho inchado
dos sopapos
que levou.
Conversei
com eles um
pouco já
havia passado
a raiva e
pensávamos
na chegada
no porto.
Na conversa
o Reis me
dizia que
ainda ia fazer
a operação
das orelhas
talvez deixassem
de fazer chacota
com suas orelhas.
Fiquei deslumbrado
com porto
alegre, uma
cidade linda
magnífica.
Logo cedo
fui ao correio
postar umas
cartas, nos
batentes da
entrada observei
uma jovem
linda subindo
os degraus
ao meu lado.
Estava acompanhada
de sua mãe.
Olhei-a nos
olhos cor
de esmeraldas
e foi um instante
para que eu
me afogasse
nos verdes
mares do lhos
dela, fomos
compelidos
um para o
outro arrastados
pelos corações
com mesma
velocidade
que uma estrela
cadente mergulha
no espaço
sideral. Sua
mãe
de forma alcoviteira
saiu e nos
deixou a sos
conversando
na praça
dos correios.
Ali vim, a
saber, do
seu nome Eliane
Ribeiro, parecia
uma ninfa
saindo no
seu primeiro
vôo,
era linda
tinha uma
voz melíflua
cada palavra
soava em meus
ouvidos como
uma linda
canção,
melodiosa
que se misturava
com os canto
dos pássaros.
Meu coração
encheu-se
daquele canto
e nossos espíritos
se encontraram.
Não
sei por quanto
tempo durou
aquele instante,
mas despertei
quando sua
mãe
disse: Vamos
minha filha.
Convidei-a
vir a uma
festa no navio
o que foi
aceito duvidoso
combinado
o nosso encontro
para noite
antes de nos
despedirmos
pedi-lhe seu
endereço
como não
tinha papel
mandei escrever
nas costas
de um postal,
que ainda
o tenho guardado.
Fui para bordo
e fiquei esperando
auspiciosamente
a noite chegar
os augúrios
prediziam
que a noite
seria linda
eu estava
eufórico
na perspectiva
de reencontra-la
a noite chegou
com seu manto
escuro pontilhado
de estrelas
e fui então
esperar a
minha musa
no portão
do porto os
convidados
foram chegando
e Eliane não
chegava.
As horas passavam
lentamente,
e eu li remoendo
a minha solidão.
Com o passar
das horas
a minha alegria
foi arrefecendo
meu coração
estava triste
murchava como
uma flor sem
água
sob o sol
candente.
Voltei para
bordo fiquei
a observar
os casai dançarem
na entrega
do amor, com
o coração
plangente
nem observei
na catraia
que se dependurava
nos lábios
de um oficial
tentando chamar
minha atenção,
o que conseguiu.
O dancing
foi montado
no tombadilho
quando ela
subiu fez
questão
de encostar-se
em min o que
me surpreendeu
visto que
estava acompanhada.
Era linda
loira e perfumada,
na primeira
oportunidade
foi dançar
e ficou me
jogando confete
fui ao seu
encontro.
Enquanto dançávamos,
ela disse
num portinhol:
“osted es
munto orguloso”
pedi desculpas
eu não
havia percebido
mais argumentei
que ela estava
acompanhada
respondeu
me que não
gostava do
cara que estava
com ela. Disse-me
que era Argentina
e que estava
residindo
aqui em porto
alegre.
Dançamos
umas duas
partes, no
fim do baile
foi levada
pelo seu acompanhante
ate o portão
do porto.
E eu me recolhi
profundamente
triste minha
consciência
dizia que
eu tinha errado.
Ainda nem
adormecera
quando fui
chamado ao
portaló
disseram-me
tem uma mulher
ai no portão
te chamando
surpreso porque
não
conhecia ninguém
ali, fui conferir
tal foi a
minha surpresa
era a loira
Argentina
– vim te buscar
para ficares
comigo! Respondi-lhe
que não
podia, pois
viajaria pela
manhã.
Como ela insistiu
aleguei condições
econômicas
o que era
verdade, ela
redargüiu:
“nõn
tenhes nem
vinte cruzeiros
para irmos
ao hotel”
disse: Não
infelizmente
não
e ela voltou
de cabeça
baixa em direção
a rua. Eu
fiquei muito
triste ela
parecia sincera
quando disse
que gostava
de min se
tivesse com
as finanças
em cima teria
ido.
No dia seguinte
levei uma
prensa do
oficial, e
fui saudado
pelos colegas
recebendo
parabéns
todos perguntavam
pela loira.
O navio suspendeu
pela manhã
com destino
ao Rio de
Janeiro. Nas
cobertas fiquei
ouvindo os
comentários
da festa,
eu fiquei
num canto
remoendo as
minhas frustrações.
O endereço
da Eliane,
muito embora
atenha procurado
só
o encontrei
muitos anos
depois revendo
meus postais
dos portos
que viajei,
eu esqueci
onde o tinha
posto. Ainda
escrevi, mas
nunca tive
resposta,
mais a inda
o guardo com
carinho só
para recordar
e me afogar
nas lembranças
daqueles olhos
verdes.
Há
uns anos atrás
encontrei
o meu amigo
Reis o morcego!
Ele disse:
“Isso vai
dar um rolo”
era assim
que dizia
quando havia
qual que problema
interno. Eu
lhe perguntei
e ai não
operou as
orelhas? Ele
então
me disse sorrindo
dou graças
a Deus por
ter minhas
orelhas grandes
perguntei-lhe
porque ele
respondeu:
Onde minha
netinha ia
puxar.